As mudanças e inovações da sociedade atual demandam reorganização
de paradigmas para todos os profissionais envolvidos com os processos de
aprendizagem, sejam eles pedagogos, psicólogos, psicopedagogos , professores,
etc.
A aprendizagem é um processo social, relacional, que
se dá pela mediação de conhecimentos e pela constituição de vínculos afetivos
entre os envolvidos.
A Escola tem o papel de oportunizar aprendizagens
significativas, onde o sujeito possa ter um campo de atuação voltado para a
expressão de seus pensamentos, constituindo autonomia, interações sociais,
transferências de aprendizagens e transformações conceituais.
Contudo, é sabido que muitas instituições ainda
trabalham com métodos arcaicos de aprendizagem, que não levam em conta as
singularidades de cada um e apenas ocupam-se da transferência mecânica de
conteúdos.
Dentro desta ótica perguntamos, onde ficaria o espaço
do sujeito que aprende? Seria a instituição a única responsável pelo fracasso
escolar e pela constituição da inibição cognitiva? Podemos afirmar que quanto
mais baixa a qualidade de ensino, mais repletas de sujeitos com dificuldades de
aprendizagem ficam as Clínicas dos Psicopedagogos, que atuam diretamente com
alunos/clientes que se sentem imobilizados diante do ato de aprender.
Mas qual seria a constituição das dificuldades de
aprendizagem?Somente oriundas da baixa qualidade do ensino no Brasil? Muitas
seriam as causas que levam um sujeito a conflitar-se com a própria autoria.
Fatores emocionais, sociais, orgânicos, pedagógicos que se entrelaçam e se
mesclam na constituição de um sintoma que comumente é multi-causal.
Cabe também a Psicopedagogia, enquanto ciência que se
ocupa da aprendizagem, refletir sobre as causas do não aprender, questionando e
levantando hipóteses, não somente acerca do porque o sujeito não aprende , mas
ocupando-se principalmente em perceber como ele aprende.
Costumamos dizer que o objetivo do trabalho psicopedagógico
é devolver ao sujeito o prazer perdido em aprender e a autonomia do exercício
da inteligência, além da conexão com a própria autoria.
A psicopedagogia sempre se preocupou em distinguir
fracasso escolar de problema de aprendizagem, em separar causas escolares, das
familiares, importando-se em demasia com diagnósticos. Na verdade, o campo
teórico e de atuação do psicopedagogo precisa mais do que nunca voltar-se para
reflexões pertinentes e consistentes sobre os sujeitos com dificuldade de aprendizagem
inserida em contextos mediadores. Essa reflexão deve estender-se para a
elaboração de ações eficazes que possam ocupar não somente o espaço clínico,
mas principalmente de intervenções nas escolas, nos hospitais e nas famílias. O
Psicopedagogo, então, diante de uma visão sistêmica, assume a função primordial
de articular a constituição de redes de apoios aos sujeitos em dificuldade de
aprendizagem.
Mas e na intervenção direta com o
aprendente? Quais seriam as ações eficazes?
Sabemos que é comum a criança ou
adolescente, em dificuldade escolar, assumir um comportamento inadequado que
serve para justificar o seu baixo rendimento escolar, principalmente perante os
colegas. Esses alunos manifestam alterações no comportamento para não entrar em
contato com a dificuldade, causa de tantas frustrações; a intervenção faz-se necessária,
pois ao intervir numa dificuldade instalada haverá intervenção na modalidade de
aprendizagem do sujeito, em seu estilo cognitivo, em seu funcionamento.O
sujeito precisa de um espaço na instituição e na clínica para expressar suas
habilidades.
A ação Psicopedagógica otimiza um espaço mediadorde ressignificação de sentidos, onde a
necessidade de criar, construir, mudar, argumentar, resgatar a curiosidade e o
desejo de aprender, fazem parte de uma constelação de intervenções quepropiciam ao sujeito condições de fazer novas
construções e conexões.
O trabalho interventivo com jogos, brinquedos,
brincadeiras, histórias, dramatizações, músicas, modelagens, pinturas, desenhos
abre espaço para tal elaboração. O sujeito sente-se mais seguro para revelar
alguns dos seus pensamentos mais íntimos, o que muitas vezes não consegue
expressar em atividades acadêmicas, devido a causas anteriormente citadas.
Dar voz ao
sujeito, tornar o aprendizado significativo, respeitar os aspectos afetivos e
intelectuais deve ser preocupação de todos os profissionais que atuam nos
espaços de circulação de conhecimento e interlocuções subjetiva.
Referências
Bibliográficas
FERNÁNDEZ, Alicia- A inteligência
aprisionada:abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família.Porto Alegre, Ed. ArtesMédicas,1990;
________________ Os idiomas do aprendente: análise das modalidades
ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 2001;
_______________O Saber em
Jogo: A psicopedagogia propiciando autorias de pensamento: Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 2001.
GRASSI, T. M.Oficinas Psicopedagógicas. Curitiba:Ibpex,
2008.
Autora: Erika Maria Cavagnolli
Pedagoga, licenciada
em Psicologia da Educação e Didática, Especialista em Educação Popular
e Psicopedagogia Clínica e Institucional, Diretora de Relações Públicas da ABPp
seção Brasília , professora da SEDF ecursos de Pós- Graduação em Psicopedagogia.